Dualidade…

18 09 2007

 Meus dedos querem escrever, mas minha alma não.

Ela quer passear pela cidade, e olhar quieta o desenrolar da vida. Ela só não percebe que a vida é um novelo de lã, e o destino, um gatinho que brinca com esse novelo, embolando-o todo dia um pouco mais.

Não acordei ainda. Tudo ta em câmera lenta, e engraçado é ouvir Mad World do Tears for fears (a original, não a versão bonitinha do Garys Jules, que toca em Donnie Darko) nessa situação. Foi como uma tomada de filme existencialista, quando a pessoa se dá conta do que ta acontecendo ao redor. Estranho, talvez bizarro.

Bizarro mesmo foi com esse sono, entrar no trem, e no desespero de adormecer por mais 40 minutos, sentar no primeiro “vão” encontrado. Na total impossibilidade cerebral de calcular velozmente o tamanho da minha bunda e o espaço entre o gordão no banco e a tiazinha do lado dele, meu cérebro só conseguiu avisar que ali tinha lugar pra sentar. E eu fui, mas todos conhecem a máxima da física  que diz que dois corpos não ocupam o mesmo lugar, ao mesmo tempo, no espaço. Nos transportes coletivos essas regras são balelas. Mas eu sentei. E fiquei os 40 minutos em um sono profundo. Apertada como um salsicha de cachorro-quente, mas fiquei.

Apareceu uma mensagem na porra do celular. :D Já não era sem tempo!

Dentro desses três pontos – que são três pontos e não reticências -  existe um pensamento. E esse pensamento deve ser dito, mas não pode ser lido. Então, fisicamente foi essa a forma que encontrei de transmiti-lo à vocês.

Termino este texto, mas não sem antes deixar aqui meu protesto e profunda indignação com minha alma!

“Cara alma minha:

Convenhamos: uma alma tão leve, tão livre, sentimental e inteligente como vc, jovem até o último fluído etéreo, se recusa veementemente a escrever toda a beleza que vê? Como pode?

Qual o problema em através de palavras belas, fazer ver aos outros olhos a vida que você vê? Porque se recusar a, como outras almas são, ser poética? Qual o seu problema com as palavras? Não precisa ser Machado de Assis, (Aliás, como corpo o qual a senhorita habita, proíbo-a de pensar em se parecer com ele), mas verse como Neruda, como Baudelaire, como Rimbaud e todos os grandes poetas latinos e franceses, chegue perto de Henry Miller, mas só um pouco, para não se contaminar demais com a realidade, passeie por quadros de Frida Kahlo, Monet, Van Gogh e Tarsila, mesmo sendo estes tão diferentes em sua arte, viva no mundo surrealista de Dali e seu bigode obsceno.

Mas que pelo amor de Deus, jamais me livre dos tremores e espantos causados por suas impressões, e compartilhe com outras almas suas sensações. Mas com poesia dona Alma, com poesia!

Atenciosamente,

O Corpo”